Tempo de ler um livro é tempo de eternidade. Ao
ler um livro, transcendemos calendário e relógio. Ao ler
um grande autor, vencemos a miopia de só querer fazer coisas imediatamente
úteis. Toda leitura é culturalmente sagrada, na medida em
que cultiva o pleno desenvolvimento de uma pessoa. Toda leitura é
vencer a indiferença espiritual, o medo que temos da nossa alma.
Toda leitura é sagrada, na medida em que nos abre os olhos para
o divino-humano. Tempo de ler um livro é tempo de eternidade. Como
ficar alheio à escatologia depois de ler a Divina Comédia?
Como debochar da teologia depois de ler O idiota, de Dostoievsky? Como
banalizar os conflitos da consciência religiosa depois de ler um
Bernanos, um Murilo Mendes, uma Adélia Prado? Tempo de ler um livro
é tempo de eternidade. Toda leitura é sagrada, na medida
em que nos faz perder o preconceito com relação às
questões transcendentais. É possível cultivar esse
preconceito depois de sentir a angústia de um Graciliano Ramos
ou de um Kafka? Se não houvesse no ser humano uma insatisfação
profunda com a sua atual condição, poderíamos passar
os dias ganindo, devorando os inimigos, lutando pela sobrevivência,
mas nunca escrevendo. Tempo de ler um livro é tempo de eternidade.
O nosso passado cultural e literário está impregnado de
reflexão teológica, explícita ou implicitamente.
Dar as costas a essa realidade é dar as costas a nós mesmos!
Tempo de ler um livro é tempo de eternidade. Até os agnósticos
e os ateus sabem que o humanismo está impregnado de caráter
religioso. Toda leitura humanizante pode tornar-se uma leitura santificante.
E toda leitura é humanamente sagrada, e divinamente humana. Tempo
de ler um livro é tempo de eternidade.
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